Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, esclarece que, entre as formas de violência que afetam a população idosa, a violência financeira é provavelmente a mais prevalente, a menos denunciada e a que mais raramente chega ao conhecimento dos profissionais de saúde. Ela não deixa marcas visíveis no corpo, não produz fraturas diagnosticáveis por imagem e frequentemente é praticada por pessoas em quem o idoso confia profundamente, o que torna sua identificação e seu enfrentamento especialmente complexos.
Nas próximas linhas, você vai descobrir por que esse crime invisível é também uma questão de saúde pública que a medicina não pode continuar ignorando.
O que é violência financeira e como ela se manifesta?
A violência financeira contra o idoso envolve o uso indevido, a apropriação não autorizada ou o controle abusivo dos recursos econômicos de uma pessoa idosa. Suas manifestações são variadas: filhos ou netos que utilizam o benefício previdenciário do idoso sem sua autorização, cuidadores que desviam dinheiro ou bens, familiares que pressionam o idoso a assinar documentos de transferência de propriedade, procurações utilizadas de forma abusiva e vendedores que exploram a confiança ou o declínio cognitivo do idoso para obter vantagens financeiras indevidas.
Como aponta o doutor Yuri Silva Portela, um dos aspectos mais perversos da violência financeira é que ela frequentemente coexiste com um discurso de cuidado e proteção. Na prática, o filho que administra as finanças do pai idoso pode estar genuinamente tentando ajudar ou pode estar se beneficiando de forma abusiva da situação, e a linha entre essas duas realidades nem sempre é clara para o próprio idoso, que tende a interpretar o comportamento do familiar à luz de décadas de relacionamento e afeto.
Por que o idoso não denuncia e o médico não pergunta?
A subnotificação da violência financeira contra o idoso tem raízes múltiplas. O idoso frequentemente sente vergonha de admitir que está sendo explorado por um familiar, interpreta a situação como um fracasso seu em proteger seus recursos ou teme que a denúncia destrua o único vínculo de cuidado que possui. Em casos de declínio cognitivo, pode simplesmente não perceber que está sendo vítima de abuso financeiro.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, os profissionais de saúde raramente abordam o tema durante as consultas, seja por não reconhecerem os sinais de alerta, seja por considerarem que se trata de um problema jurídico ou familiar alheio à sua competência clínica. No entanto, o impacto da violência financeira sobre a saúde do idoso é direto e mensurável: privação de alimentação adequada, impossibilidade de adquirir medicamentos, piora de condições crônicas por falta de recursos para consultas e exames, além de depressão, ansiedade e deterioração acelerada do estado geral.
Sinais de alerta que o profissional de saúde precisa reconhecer
Identificar a violência financeira no contexto clínico exige atenção a sinais que, isoladamente, podem parecer pouco significativos, mas que em conjunto formam um padrão reconhecível. Diante desse cenário, idosos que chegam à consulta sem os medicamentos prescritos por não terem dinheiro para comprá-los, que relatam não ter acesso ao próprio benefício previdenciário, que demonstram ansiedade ou evasividade quando o assunto financeiro é abordado na presença de acompanhantes ou que apresentam mudanças abruptas em documentos patrimoniais merecem avaliação cuidadosa.
Conforme indica Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, criar um momento de consulta sem a presença do acompanhante, mesmo que brevemente, é uma prática que pode revelar situações que o idoso não conseguiria ou não ousaria relatar na presença de quem pratica o abuso. Essa simples mudança no fluxo da consulta tem potencial diagnóstico real para diversas formas de violência, incluindo a financeira.
Proteção jurídica, redes de apoio e o papel da saúde comunitária
O enfrentamento da violência financeira contra o idoso exige articulação entre diferentes setores: saúde, assistência social, sistema jurídico e comunidade. O profissional de saúde que identifica ou suspeita de abuso financeiro tem responsabilidade de acionar essa rede, orientando o idoso sobre seus direitos, notificando os órgãos competentes quando necessário e garantindo que a vítima não fique sozinha diante de uma situação que frequentemente envolve pessoas de quem depende para sobreviver.
Segundo Yuri Silva Portela, iniciativas de saúde comunitária que chegam ao domicílio e constroem vínculos de confiança com o idoso e sua família têm papel insubstituível nesse contexto. Ver o ambiente onde o idoso vive, conhecer quem o rodeia e estar presente de forma regular são condições que tornam possível identificar o que nenhum exame laboratorial consegue revelar: a violência que acontece dentro de casa, longe dos olhos do sistema, mas muito perto do sofrimento de quem a vive.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

