Existe uma expectativa silenciosa sobre mulheres que saem de relacionamentos abusivos: a de que, uma vez fora, o caminho natural é seguir em frente e deixar para trás o que aconteceu. Essa ideia, além de simplista, pode ser cruel. O recomeço depois do abuso não é uma virada de página. É um processo lento, não linear e profundamente pessoal, que exige muito mais do que distância física do agressor. Em sua atuação com mulheres que atravessam esse momento, a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio acompanha de perto o que acontece depois da saída e o que realmente sustenta uma reconstrução duradoura.
O abuso deixa marcas que não desaparecem com o fim da relação. Elas se manifestam na dificuldade de confiar, na sensação persistente de não ser suficiente, no medo de que qualquer relação nova repita o mesmo padrão. Ignorar essas marcas não as apaga. Compreendê-las é o que permite, com o tempo, que percam força.
Recomeçar, nesse sentido, não é esquecer. É aprender a carregar o que aconteceu de uma forma que não impeça de viver.
Por que o recomeço é mais difícil do que parece de fora?
Quem observa de fora frequentemente espera que a saída do relacionamento abusivo seja seguida de alívio imediato e de uma retomada rápida da vida anterior. Na prática, o que muitas mulheres relatam é quase o oposto: uma sensação de desorientação, de vazio e, paradoxalmente, de saudade de algo que as machucou profundamente.
Esse aparente paradoxo tem explicação na psicanálise. O vínculo formado dentro de um relacionamento abusivo, por mais destrutivo que seja, é um vínculo real. Ele mobiliza afetos intensos, cria uma rotina e ocupa um lugar na vida psíquica da mulher que não desaparece simplesmente porque a relação terminou. Desfazer esse vínculo internamente leva tempo e exige um processo que vai muito além da decisão de não voltar.
O que o abuso faz com a relação que a mulher tem consigo mesma?
Um dos efeitos mais duradouros do abuso é o que ele produz na relação da mulher com sua própria percepção de si. Críticas sistemáticas, humilhações repetidas e a desqualificação constante de suas escolhas e julgamentos constroem, ao longo do tempo, uma imagem interna de insuficiência que passa a parecer verdadeira. A mulher começa a duvidar do que sente, do que pensa e do que merece.
Esse é um dos legados mais difíceis de enfrentar no recomeço. Não porque seja permanente, mas porque é invisível e porque se confunde com a própria identidade. Taiza Tosatt Eleoterio acompanha mulheres nesse processo e observa que reconstruir a autoestima depois do abuso não é uma questão de autoajuda ou de força de vontade. É um trabalho psíquico que exige suporte, tempo e um espaço onde a mulher possa se escutar sem o filtro do que o agressor instalou nela.
Como a psicanálise contribui para a reconstrução depois do abuso?
A psicanálise oferece algo que poucos espaços conseguem oferecer de forma consistente: escuta sem julgamento e sem pressa. No processo de reconstrução após o abuso, isso tem um valor que vai além do simbólico. Uma mulher que passou anos tendo seus relatos desacreditados, seus sentimentos minimizados e suas percepções questionadas precisa, antes de qualquer coisa, de um espaço onde sua experiência seja reconhecida como real e legítima.
A partir dessa escuta, o trabalho psicanalítico ajuda a mulher a compreender os mecanismos que a mantiveram dentro do relacionamento, sem transformar essa compreensão em culpa. Entender não é o mesmo que se responsabilizar pelo abuso sofrido. É ter acesso a uma leitura mais clara do que aconteceu, o que reduz o risco de repetir os mesmos padrões em relações futuras, como destaca a especialista em saúde mental e relações familiares.
Quais são os sinais de que o processo de reconstrução está avançando?
O recomeço depois de um relacionamento abusivo raramente segue uma linha reta. Há dias de clareza e dias de dúvida. Há momentos em que a mulher se sente mais inteira e momentos em que a dor volta com intensidade surpreendente. Isso não significa que o processo está falhando. Significa que ele está acontecendo.
Alguns sinais indicam que a reconstrução avança, ainda que de forma não linear: a capacidade crescente de identificar comportamentos que antes passavam despercebidos, a retomada de vínculos que o abuso havia enfraquecido, a recuperação gradual da confiança no próprio julgamento e a possibilidade de imaginar um futuro que não seja definido pelo que aconteceu. Cada um desses movimentos, por menor que pareça, representa uma mudança real.
O que sustenta uma reconstrução que dura?
Reconstruções duradouras não se sustentam apenas pela determinação individual. Elas precisam de suporte concreto: acesso a acompanhamento psicológico, redes de apoio que permaneçam presentes ao longo do tempo, condições mínimas de estabilidade financeira e social, e relacionamentos que ofereçam segurança em vez de repetir padrões conhecidos de controle e medo.
O recomeço que dura é aquele construído sobre bases reais, não sobre a pressão de parecer que já superou o que aconteceu. Taiza Tosatt Eleoterio é direta ao falar sobre esse ponto: não existe prazo certo para reconstruir o que o abuso desfez. Existe o tempo de cada mulher, e respeitar esse tempo é parte fundamental de qualquer suporte que pretenda ser genuíno.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

